Lances iniciais em 19/10
Óleo e têmpera sobre tela
Michel Scherer (1987) é artista visual/gustativo e cozinheiro. Sua prática atravessa culinária, objeto e pintura, explorando memórias em projetos, e industrializados como a mandioca, o pó xadrez e os óxidos. Tem como prática regular a pintura livre ao ar livre e a micro produção culinária para o #slowbakinggroup.
O artista desenvolve séries em ateliê como flores para casas em chamas, signos e mundo, melhores do ano, flores para novos estados; e fora dele também, como pintura livre ao ar livre. Sua prática explora memória, traumas coletivos e a intimidade da casa como metáfora da existência, partindo geralmente da história dos ingredientes/materiais que passam por corpos mortos e se tornam terra, para então virarem alimento em nossos corpos novamente. Assim reflete, como na cozinha da pintura, os estados cíclicos comuns à experiência terrestre.
Nº9 (2025) faz parte da série Drowned World, que o artista desenvolve desde 2024. Como campo de expansão simbólica, Scherer manifesta chapéus flutuando sobre uma superfície vermelho-sangue que evoca tanto a ideia de memória coletiva quanto cenários pós-batalha – especialmente pela ausência de corpos e pelos vestígios de presença desaparecida.
Na obra, a série ganha uma clareza brutal: o líquido não é água, mas campo entre sangue, lama e tinta, onde a vida foi dissolvida. O chapéu aparece como signo de identidade e, ao se tornar apenas superfície boiante, desloca o sujeito para o objeto. Memória sem corpo, testemunho sem voz.
Formalmente, a tensão cromática cria tensão imediata, enquanto os contornos sugerem fluxo e movimentação. A série opera em duas camadas, a primeira, de cunho histórico e político comum, ecoando massacres, desaparecimentos e violências. A segunda, em um campo poético existencial, íntimo e ocultado – o desaparecimento do corpo humano e a permanência dos signos, como se a cultura sobrevivesse enquanto a carne se perde.




