Lances iniciais em 19/10
Costura, bordado, pintura, couro e tecido sobre tela
Randolpho Lamonier (1988) transita por diferentes mídias, como arte têxtil, pintura, vídeo e instalação, articulando, para além da diversidade formal, encontros entre imagens da cultura vernacular e procedimentos experimentais. Em sua pesquisa, palavra e imagem estão sempre em diálogo e costumam versar sobre micro e macro política, crônicas, diários e múltiplos cruzamentos entre memória e ficção.
Em Digging in the dark Searching for the hidden truth, the body’s secrets (2025) é possível observar flores bem comportadas, costuradas com precisão sobre tecidos e tela, que descansam em arranjos aparentemente pacíficos. Ao chegar mais perto, no entanto, tudo começa a se corromper: naturezas-mortas têxteis, feitas com trapos de tecidos e roupas íntimas, bordados, pelúcias, botões, miçangas e couro se unem a palavras salpicadas como pista de algo que não se mostra por inteiro. Cada imagem acompanha um haikai inédito, curto e cortante, como uma mensagem enviada tarde da noite: ambígua, pulsante, suja de amor e ódio.
O trabalho se constrói no atrito entre o delicado e o explícito, o riso e a melancolia, o clássico e o contemporâneo. É uma tentativa de erotizar o próprio ato de compor — e de forçar um encontro (neste caso, forçado mesmo) entre o haikai japonês e a natureza-morta europeia.
Ao costurar essas figuras, muitas vezes com tags extraídas do vocabulário pornográfico digital, o artista insere a intimidade do toque manual num espaço habitado por algoritmos, desejos programados e fantasias prontas para consumo. Há humor, sim, mas também uma certa melancolia: a percepção de que nos encontros — físicos ou virtuais — projetamos no outro nossas próprias falhas, nossos restos, nossas sombras e nossas mais profundas vulnerabilidades. O erotismo que atravessa a série não é puro prazer: ele é também ruído, atrito, e às vezes um “excesso de ausência”. A obra é, enfim, um convite ao estranhamento: ao perceber que a flor não é apenas uma flor, e que a linguagem, mesmo a mais econômica ou delicada, jamais é inofensiva.




