Lances iniciais em 19/10
Óleo e bastão oleoso sobre tela
Mavi Accorsi (1998) é artista visual e vive em São Paulo. Licenciada e bacharel em artes visuais pela FAAP, pesquisa a criação como experiência ontológica de corpo e percepção. Seu trabalho envolve palavra, gesto, cor e memória, entendendo a pintura como um corpo que transforma e se transforma. Sua prática parte da intuição e se coloca no intervalo entre figura e abstração, buscando no figurativo o inominável, e sustentando a tensão entre presença e dissolução da forma.
E se muitas vezes pinto grutas é que elas são o meu mergulho na terra, escuras, mas nimbadas de claridade, e eu, sangue da natureza (2025) faz parte de uma série criada a partir de frases dos livros Água viva e Um sopro de vida, de Clarice Lispector. Em grande parte das obras dessa série, os títulos foram encontrados depois, como ecos do que já havia acontecido na tela. Aqui, no entanto, a frase veio antes e se tornou o ponto de partida. Ela fez a artista pensar o gesto como mergulho: mergulho na matéria, na cor, na própria experiência de pintar. Assim, trabalhou com camadas espessas de verdes e azuis até que a superfície ganhasse densidade e profundidade. Depois, com o bastão oleoso, desenhou gestos mais duros, quase como marcas deixadas na pedra. Ao raspar partes encobertas, pequenas claridades começaram a surgir, como se o próprio ato de pintar fosse também uma forma de escavar.
Essa obra nasce da pesquisa de Accorsi sobre a pintura como experiência ontológica, em que o fazer não busca representar algo, mas existir junto da matéria. A gruta é corpo e paisagem ao mesmo tempo: um espaço de dentro, onde o gesto, a cor e o tempo se misturam. A pintura foi se revelando nesse jogo entre esconder e deixar passar — como quem tateia no escuro e encontra, sem querer, um brilho enterrado.




