Lances iniciais em 19/10
Óleo sobre tela
Miguel Afa (1987) vive e trabalha no Rio de Janeiro. Iniciou sua trajetória em 2021 nas ruas e becos do Complexo do Alemão através do graffiti e frequentou a Escola de Belas Artes da UFRJ. Seu trabalho realiza uma leitura sobre os corpos periféricos, contrapondo os aspectos desfavoráveis aos quais são submetidos, e propondo outra abordagem imagética que potencializa o entendimento de afeto. Por vezes, suas pinturas são singelas e cheias de sensibilidade; em outros casos, apresentam mensagens políticas diretas.
O que seu olhar captura ganha uma aura própria graças às cores que utiliza. Sua paleta amena é um componente fundamental das composições, aumentando ainda mais a profundidade do que é representado. A cor não é ingênua, ela também é discurso, um posicionamento sobre as cenas retratadas – para o artista, esmaecer é nos lembrar o que é visto e o que é invisibilizado.
Fuga (2025) evoca uma cena do filme Moonlight (2016) – também nome da série à qual a obra pertence –, em que o personagem, fugindo de outros meninos que o perseguem, corre não apenas por medo, mas em busca de si mesmo. A penumbra espessa e o uso de tons terrosos e azulados dissolvem os contornos da figura, transformando a corrida em um gesto quase espiritual — um movimento entre a violência e o desejo de permanecer inteiro. A paisagem densa, quase opaca, atua como espelho interno: o ambiente se confunde com o corpo, e a ação de correr torna-se um ato de resistência silenciosa. Aqui, a autopreservação não é apenas física, mas existencial — uma tentativa de proteger o que ainda não pôde ser nomeado, um lampejo de sobrevivência diante do apagamento.
A obra esteve na exposição Um céu para caber, individual do artista na galeria A Gentil Carioca.




