Me you (2024) é formado por desenhos de argila dançando sobre o papel. Nas palavras de Ernesto Neto: “Esses desenhos acontecem como uma respiração que incorpora um gesto; cada gesto é uma dança do corpo sobre o papel, papel-palco, o Ser e o mundo. O pincel, a argila diluída e o papel; o gesto, a pincelada e o traço. Molhar o pincel, respirar e liberar o gesto… em questão de segundos, a terra molhada escorre sobre o papel; o golpe atinge o alvo, e a dança se revela. O desenho dança a dança do corpo; depois desse momento, nada mais pode ser alterado. O gesto-respiração passou, o vento soprou, e a terra molhada sobre o papel-terra permanece ali, contando a história viva daquele instante, da respiração-vento e do caminho que percorreu. Os dados foram lançados; nada mais pode ser feito, apenas outro gesto, outro desenho, outra história sobre a mesma grande história relacionada ao gesto anterior”.
O artista ressalta que a argila e o barro são elementos ancestrais presentes na história da humanidade — na América, na África, no Brasil, na Ásia, na Europa, no Oriente Médio, no Japão. São o corpo da terra e se relacionam com os corpos humanos há milhares de anos, embora raramente sejam vistos de perto. Muitas vezes são vistos já cozidos, ou nas poças de lama nas quais as crianças adoram brincar, subindo entre os dedos dos pés. “A argila gosta de brincar conosco, e o artista gosta de brincar com a argila”. Assim, está nesse desenho não por acaso, mas para ser homenageada.
Ernesto Neto (1964) produz esculturas e grandes instalações imersivas, utilizando técnicas artesanais como o crochê para compor estruturas flexíveis e interativas que ativam os nossos cinco sentidos, com a incorporação de elementos botânicos, ervas e especiarias. O artista tece membranas e peles, redes e invólucros que usam a gravidade e o equilíbrio como recursos de composição. Seus trabalhos mantêm sempre uma relação com a natureza, seja por meio de suas fisionomias biomórficas, seja no caráter interligado dos elementos que compõem seus espaços. Os ambientes plurissensoriais de Ernesto Neto são percorridos e habitados, formando locais de encontro, troca e reflexão. O público não é pressuposto como um grupo de observadores, mas acolhido como um coletivo de presenças e corpos ativos nas instalações.

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