Pé no chão, pé no céu (2017-2024) articula uma série de símbolos: o pé com chinelo e o pé sem chinelo remetem a um tempo de transição em que os caminhos são traçados descalços; seja no passado ou no presente. A divisão de cores é uma linha que divide territórios (indígena e não indígena). Pisar no céu, por exemplo, pode remeter a uma ideia de colonização da morte. O corpo social indígena também está retratado nesta pintura: ora lida com a forma como um corpo pode ser lido de maneira embranquecida conforme o contexto em que se caminha, ora com o modo como o chinelo e outros elementos (a própria pintura ou a roupa do personagem) podem ser erroneamente considerados sinônimo de “aculturação”. O assunto da obra torna-se o caminhar e o trânsito de pessoas indígenas em circuitos delimitados.
Artista do povo wapichana, Gustavo Caboco (1989) desenvolve uma produção que transita entre as artes visuais, o cinema e a literatura. Em sua obra, encontramos dispositivos para reflexão sobre os deslocamentos dos corpos indígenas, os processos de valorização das culturas indígenas e o direito à memória. Parte importante de suas proposições acontece em espaços educativos, como escolas, universidades, centros culturais, comunidades indígenas e quilombolas. Desenvolve pesquisa autônoma em acervos e arquivos museológicos como forma de contraposição às narrativas hegemônicas da colonialidade.
Em 2001 fez o seu primeiro “retorno à terra” Wapichana. Além de ser autor publicado, participou de diversas exposições nacionais e internacionais, entre as quais a 34ª Bienal de São Paulo (2021), e assinou a curadoria do Pavilhão Hãhãwpuá na Bienal de Veneza de 2024 ao lado de Denilson Baniwa e Arissana Pataxó.

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