Sem título (2026) faz parte da série Auto da Conquista e se desdobra primariamente pela relação dos relevos em contraponto com a cor. Na obra, o gesto parte do entalhe da madeira, criando ritmos e formas, enquanto a cor realiza um invólucro que ao mesmo tempo une e distancia a percepção de formatos, luz e sombra.
É, para o artista, um flerte, um jogo de memórias e ancestralidade, bem como a obrigatoriedade de ser e estar – presença, por assim dizer. Partindo da fenomenologia da percepção, proposta por Merleau-Ponty, e do conceito de vadiagem existente na Capoeira Angola e destrinchado por Nego Bispo, Ferreira elabora pinturas expandidas que existem a partir de um corpo memória. Em contraponto à ideia geral de pintura/escultura e à sua percepção acadêmica, que parte da racionalização, propõe uma experiência física, individual, porém coletiva.
Oto Ferreira (1995) tem sua pesquisa primordial voltada à madeira – matéria e forma – evocando aspectos do realocamento de ofícios ancestrais, suas potências práticas e ideológicas. Madeiras advindas da construção civil, de podas ou de aquisição comercial se tornam possibilidades para as diversas elaborações do artista, desdobrando-se em ritmos, cores, texturas e movimentos.
Em paralelo, Ferreira desenvolve uma crítica à ideologia hegemônica com referências ao sagrado, realizando formas que adentram paisagens abstratas, encenando e justapondo motivos do cotidiano e do sagrado afro-brasileiro.
Sua produção pictórica segue como a escultural, gerando abstrações por meio de paisagens: cor, perspectiva, gesto e transparência. Criando formas assíduas e etéreas, contrapondo a matéria escultórica.

EN



